sexta-feira, 15 de agosto de 2014

DURKHEIM - ENSAIO DE Nº 5


Jeová vai à escola: proselitismo religioso dentro de uma escola pública e laica

Educar é um ato político – em linhas gerais, eis a quinta-essência da pedagogia libertadora do mestre Paulo Freire. No entanto, não é propriamente sobre política que este artigo visa tratar, e sim a respeito da discussão em torno da religião, do Estado (laico) e da educação, discussão essa que perpassa, sem dúvida, o campo político. Para tanto, no que concerne à religião, o fulcro do presente artigo buscará respaldo sociológico dentro dos limites da teoria social de Émile Durkheim (mais precisamente em sua obra As formas elementares da vida religiosa), e no que diz respeito à educação e ao Estado, buscar-se-á respaldo jurídico no inciso IV do artigo 3º e no artigo 33, da Lei 9.394/96 que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional (mais conhecida como LDB).
Dado o enunciado acima, trago a tona uma memória dos meus tempos de estágio, quando ainda cursava licenciatura em pedagogia, a fim de analisá-la à luz do que foi proposto: certo dia, a mãe de uma aluna do 2º ano do Ensino Fundamental I entregou para a professora de sua filha, isto é, para professora da sala na qual eu estava cumprindo uma parte do meu estágio de observação, um pacote com vários saquinhos de pipocas doces, para que os mesmos fossem distribuídos às crianças. Até aí tudo bem, tendo em vista que não houve relutância por parte da mestra. As atividades daquele dia prosseguiram normalmente como de praxe, isto é, até o momento antes da entrega das pipocas. Após distribuí-las à sua turma, a professora pediu que cada aluno erguesse a pipoca em direção ao céu e repetisse as suas palavras. As palavras, em questão, infelizmente eu não as recordo com total fidelidade, porém seu conteúdo clamava, em suma, pela libertação daquele alimento, que Deus jogasse por terra todas as oferendas impregnadas em cada saquinho de pipoca doce. As crianças, a maioria com sete anos de idade, repetiam suas palavras com completa inocência e ingenuidade, afinal para elas eram apenas palavras, e eu, pasmo, observando aquela cena e pensando: “não, isso não está acontecendo comigo”. Por fim, para aumentar ainda mais a minha surpresa, após ouvir o uníssono amém por parte dos educandos, a professora piscou o olho pra mim e segredou-me: “oferenda a Cosme e Damião”.
Não julgo o fato descrito acima a partir da minha incredulidade religiosa, melhor, espero assim não ter prosseguido, afinal sabemos que o projeto utópico da sociologia durkheimiana é impossível de ser atingido em sua integridade, uma vez que não é possível a qualquer cientista social o abandono radical de suas prenoções particulares, ou, como dizia Paulo Freire, de sua leitura de mundo. Assim, no que diz respeito à religião em si, a professora supracitada não percebe o fato de que não existem religiões falsas, uma vez que todas são verdadeiras a seu modo, ou seja, respondem a questões que lhe são próprias do seu tempo, que são eminentemente sociais. Por outro lado, no que tange à questão da Educação e do Estado, foi infringido tanto o artigo 33 da LDB, o qual veda qualquer forma de proselitismo religioso e assevera o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, quanto o inciso IV, do artigo 3º dessa mesma Lei, que promulga o respeito à liberdade e apreço a tolerância. Por fim, é válido lembrar, à professora em questão, de que “ninguém é sujeito da autonomia de ninguém” (FREIRE, 1999, p. 120).



REFERÊNCIA:

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à pratica educativa. 4 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.


terça-feira, 22 de julho de 2014

VOLTA LOGO PRA SP OU VAMOS PRA MADRI


Tudo o que ela queria era apenas um sexo bem feito, uma boa noite de sono, café da manhã preparado por ele, um SMS agradecendo o louco final de semana e um Marlboro entre os dedos. Essa é a Antía, neta do Velho Berreiro, filha da Galícia, amiga do funk, amante do povo brasileiro.


Com ela sorrimos, choramos, bebemos, fumamos, cantamos, dançamos, estudamos.
Com ela aprendemos a desconstruir nossos preconceitos de classes, nossos medos de andar nas ruas à noite, nossa insegurança diante do novo.
Com ela fomos ao risca faca, cantamos Imagine, dançamos La bamba, fizemos pesquisa antropológica, produzimos etnografias urbanas.


Com ela aprendemos a diferença crucial entre ser puta e ser desapegada, aprendemos a dançar conforme o ritmo da batida, a ignorar o bonitão que nos ignorou.
Com ela aprendemos a beber auga e a diferenciar cafezinho vagabundo de café com glamour. Aprendemos que a felicidade está a dois passos da loucura, justamente na divisa que separa o cotidiano do desconhecido.


Com ela aprendemos a enxergar o Brasil. Sim, o nosso Brasil! Pois até então só tínhamos o visto superficialmente, e ver não é o mesmo que enxergar.


Em breve, daqui a algumas horas, nossa Doña estará voltando para o hemisfério norte, levará consigo recordações e amizades para toda uma vida.
Sentiremos muito a sua falta, Antía, principalmente na quadra da Unifesp, no bar da esquina e no Red Bar. Já dizia o nosso grande poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, que de tudo fica um pouco. Sim, um pouco. Não muito, apenas um pouco. E esse apenas um pouco aperta o coração, dá um friozinho na barriga, faz dos olhos cachoeira e brota em nós a certeza que esse pouco não é tão pouco assim.


Agradecemos por tudo.
Com amor, a galerinha das Ciências Sociais.


segunda-feira, 5 de maio de 2014

PRAZER


Não sei...
Sei lá...
Mas estes dias,
Estas horas,
Estes finais de semana...
Eu os classifico como
Minha fase epicuriana. 


sexta-feira, 4 de abril de 2014

IMPALPÁVEL



Política,
Palavras,
Álcool,
Fumaça.
Sinto que estou,
Pouco a pouco, mas violentamente,
Afundando-me num mar de coisas impalpáveis.
A água já está acima da minha cintura.
A maresia me entorpece.
As ondas se quebram no meu peito.
E eu não sei nadar.


sexta-feira, 21 de março de 2014

NÃO CONTE A NINGUÉM


PRIMEIRO ATO
Entra o leão com um cigarro na mão.
Enquanto fuma, vigia sua preza,
Deitada numa cadeira.
“Decifra-me ou eu te devoro”,
Ruge a fera, com leveza,
E acorda a ovelha.

SEGUNDO ATO
A ovelha cai no buraco.
Entra no ressinto do leão.
Quer, a todo custo, decifrá-lo,
Mas seu ato é vão,
Por hora, é falho.

TERCEIRO ATO
A tragédia está consumada:
Pelo leão, a ovelha está apaixonada.
Nega, pela imagem do sagrado,
Seu desejo irrefreável.
E sua prole?
E o Contrato?
A ovelha tresmalhou-se do rebanho.
Sente que o que sente é amor.
Está perdida e deseja ser salva.
Mas não pode alcançá-la o Bom Pastor.

QUARTO ATO
O silêncio consome a ovelha:
Ninguém pode saber da brincadeira.
Fala, pra si mesma, que só uma fase;
Vai passar, vai passar...
Ora, já não tem mais idade!
Já não tem mais idade de se apaixonar.

QUINTO ATO
A ovelha está completamente em desespero:
Agarrou-se ao próprio medo.
Atribulada, grita:
“Devora-me ou eu te decifro!”
O leão sorri.
É um homem,
Não um bicho.
O homem beija a ovelha,
Que se transforma em princesa.
Eis, pois, a esfinge decifrada.
As cortinas se fecham.
A plateia aplaude.
E o resto, é nada.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

UM PROLETÁRIO


Para Antônia Bruna Silva, com carinho.

Cristãos por toda parte proclamam à volta de Cristo.
Ora, ele já voltou!
É um operário:
Trabalha dez horas por dia,
Produz mais-valia
E não vale nada mais que seu salário.
Acorda às cinco da manhã,
Come pão com café com leite,
Veste seu macacão suado
E pega seu ônibus lotado.
Jesus não é rei,
Não é um lorde,
Não é burguês,
Não leu Maquiavel:
É um proletário.
Assiste novela com a esposa,
Fuma seu cigarro,
Reza antes de dormir
E toma cerveja aos sábados.
Tem quatro filhos.
O mais velho,
Com onze anos,
Não se encontra alfabetizado.
Mas o mais novo,
Com três anos de idade,
Aprendeu a ler o rótulo da Coca-Cola,
Graças a Deus já está letrado.
Jesus é um bom pai.
Um bom marido.
Um bom metalúrgico.
Foi um bom filho.
A mãe, Maria,
Morrera dois meses atrás,
Na mesa de cirurgia.
O pai, José,
Pobre artesão desgraçado,
Do seu meio de produção
Fora historicamente expropriado.
Também morrera,
Seis anos atrás,
Com seus dedos calejados.
Jesus não é carpinteiro,
Não conhece Sociologia,
Não sabe do Monte Sinai,
Mas aprendera metalurgia
Numa oficina do SENAI.
Os calos, em suas mãos,
Cobriram as cicatrizes dos cravos.
As unhas estão sujas de graxa.
O corpo está cansado.
O leite, de suas crias, está acabando
E já se foi todo o seu salário.
Jesus não é monarca,
Não é banqueiro,
Não é um déspota,
Não tem principado.
Ele está aqui.
Mora no outro.
Dentro do outro.
Na dor do outro.
Em todos nós.
Acorda cedo,
Bate cartão,
Cumpre horário:
Jesus é um proletário.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

AO SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO DO MUNICÍPIO DE GUARULHOS-SP


Educar é um ato político. Talvez esta não seja a melhor maneira de se começar um texto cujo destinatário é nada menos que o Secretário de Educação, pois, como se vê, descumpro a formalidade exigida para tal ocasião. No entanto, já que esta máxima freiriana – tão clichê, por sinal – introduz perfeitamente o assunto que me proponho a discutir, mantenho-a e ouso repeti-la adiante: como o Sr. mesmo sabe, professor Moacir de Souza, educar é um ato político.
Antes de tudo, permita-me uma breve apresentação de minha pessoa: meu nome é Edvaldo dos Reis, tenho 22 anos, sou formado em Pedagogia, já fui estagiário do Centro de Incentivo à Leitura (CIL) no CEU Ottawa-Uirapuru, atualmente curso Ciências Sociais e em breve ingressarei na rede municipal de Guarulhos-SP (como professor de Educação Básica).
Há algum tempo, desde o período em que estagiei em uma escola da Prefeitura de Guarulhos, a educação Infantil e Fundamental I, no município em questão, vem me preocupando bastante, principalmente quando lembro que todo o meu estágio foi realizado em uma escola localizada no Centro deste mesmo município, em outras palavras, não era propriamente uma escola periférica (sem aspas e sem eufemismo). Contudo, até ontem o meu “queijo” não havia sido mexido; hoje, porém, tudo mudou, e o que era apenas uma preocupação, tornou-se efetivamente um problema.
Para ser mais específico, exponho aqui o meu caso em particular, que infelizmente não é um caso único muito menos isolado, portanto, é um problema público: hoje, dia 03 de fevereiro de 2014, na primeira reunião de pais e mestres, a professora de minha sobrinha (de cinco anos de idade) falou que não haverá atividades extraescolares e as atividades intraescolares serão muito poucas, as quais se restringirão à aprendizagem do nome próprio de cada criança (leia-se aluno) e as “letrinhas” do alfabeto. No entanto, a mesma professora “despreocupou” os pais: “haverá muitas brincadeiras: temos três caixas de brinquedos e um tanque de areia”, informou-nos ela.
Antes de eu prosseguir com a minha argumentação, afirmo, desde já, que não tenho nada contra a ludicidade na Educação Infantil; muito pelo contrário, estou ciente dos benefícios que os jogos e as brincadeiras em geral desempenham no desenvolvimento psicomotor das crianças e de sua importância no processo de ensino-aprendizagem. Entretanto, aqui vai voluntariamente a minha primeira crítica maiêutica no texto em pauta: só? Serão duzentos (200) dias letivos brincando? Não haverá conteúdo? Apenas brincar, brincar e brincar?
Eu gostaria muito de estar redigindo esta mensagem com o intuito de cobrar qualidade na educação, mas, veja bem, Sr. Secretário, estou falando apenas de ensino, ou melhor, da falta deste; em outras palavras, estou problematizando o ensino básico, o elementar, o mínimo esperado para crianças que se encontram matriculadas no Estágio II.
No que diz respeito às atividades propostas pela professora, convém eu destacar que minha sobrinha aprendeu a escrever seu nome aos três anos de idade e que ela já conhece todo o alfabeto, ou seja, do ponto de vista intelectual e cognitivo, parece que este ano não terá mais nada a aprender, uma vez que o conteúdo programático fora resumido ao que falei há pouco. Acredito que as outras crianças também já saibam grafar seu nome e conheçam muito bem o abecedário (a Galinha Pintadinha, por seu turno, é mestra em ensinar isto). Entretanto, a Lei 9.394/96, que estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), nos obriga a matriculá-la, então, cumpra-se a Lei ou saberemos o peso da espada da Justiça, que por sinal nada vê atrás da venda que cimentaram em seus olhos.
Como disse na introdução, educar é um ato político. Brincar também. E este “brincar” não interessa apenas às crianças, que gostam muito, por sinal. Interessa, sobretudo, a classe dominante. A famosa burguesia. A quem interessa a sonegação do conhecimento? A quem interessa a privatização do saber? A quem interessa a reprodução classista? Sem dúvida educar é um ato político. E brincar é mais ainda.
Um partido realmente de esquerda está ciente disto. Um partido verdadeiramente de esquerda jamais entregará a educação nas mãos dos pós-modernos. Um partido de esquerda consciente do seu papel para com a classe trabalhadora educará os filhos desta classe. A direita, por vez, permite oficialmente a dualidade pedagógica, isto é, a existência de dois grandes modelos de ensino: a escola do rico e a do pobre, como nos diz o professor José Carlos Libâneo, em seu artigo O dualismo perverso da escola pública brasileira.
O professor Newton Duarte, por sua vez, afirma que, se o socialismo é a socialização da riqueza produzida pela humanidade, logo, uma educação de caráter socialista, socializará o conhecimento, isto é, prezará a transmissão do saber, e ensinará efetivamente os filhos da classe trabalhadora.
Anda em voga, ultimamente, a ideia de “criticidade” do aluno. Arautos, das boas novas, proclamam aos quatro ventos a autonomia do “educando”, o seu papel de agente ativo e “transformador” da realidade social. Eu poderia dissertar páginas e mais páginas a respeito disto, mas deixo tal tarefa aos meus amigos “construtivistas”, que apenas com as palavras revolucionarão a ordem vigente, isto é, modificarão a estrutura no plano da superestrutura. No entanto, como não concordo com o discurso vigente, ouso dizer, a contragosto de muitos, que o nada nada critica, simplesmente porque o nada nada é. A famosa criticidade é produto histórico-social, e, como tal, deve ser aprendida. Os alunos não são demiurgos. Diferentemente do que nos ensina a Teologia, nada se cria a partir do nada.
Volto, mais uma vez, a questão dos partidos políticos, e aqui deixo formalmente minha segunda crítica voluntária: o Partido dos Trabalhadores (PT) em Guarulhos-SP, no que diz respeito à educação, tem contribuído, em parte, para com as desigualdades sociais, pelo menos é isso que vejo no panorama da educação. Privar as crianças do conhecimento é um ato político.  
Sem dúvida alguma, Paulo Freire contribuiu imensamente para com a educação como um todo, mas sua teoria sobre a educação bancária, a meu ver, permite uma leitura que, seguida à risca, leva ao esvaziamento da escola. É óbvio que a mera transmissão de conteúdos de pouco nos vale, o que não significa o abandono radical da instrução, caso contrário abandonemos o projeto de escola.
Destaco, ainda, as manifestações de junho de 2013, e o grito do “Gigante”, entre outras coisas, por educação padrão FIFA. É bom saber que não estamos sós.
Por fim, saliento que conheço a proposta pedagógica da rede de Guarulhos e os Referenciais Curriculares Nacionais Para a Educação Infantil, e se somos realmente críticos, ativos e agentes da transformação, e já que a LDBEN no artigo 3º, nos seus incisos II e III, nos assevera a liberdade de ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento e o pluralismo de ideias e concepções pedagógicas, acredito ser possível repensar o problema que aqui expus, a fim de buscar solucioná-lo, não para satisfação e regozijo do meu ego, mas para se reparar o grande mal que vem se cometendo na educação pública de nosso município.
Subscrevo-me com os melhores cumprimentos.


Edvaldo dos Reis.