sábado, 7 de dezembro de 2013

UM LEMBRETE


Se sua mãe trabalhasse em uma cantina,
Limpasse a fábrica das bailarinas
E ainda fizesse faxina,
Talvez você compreenderia minha sina,
Ao perceber que o buraco é mais em cima,
E jamais chamaria o Marx de facínora.


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

ANOLIMASSILFI


Assim como o objeto é,
Para o idealismo hegeliano,
A materialização,
Pura e simplesmente,
Da Ideia, do Espírito Absoluto;
A tua carne, o teu suor e a tua fala são,
Para mim,
A força motriz do desejo que,
Na palma da minha mão,
Transforma-te em algo branco e pegajoso,
O qual, vulgarmente, chamamos de gozo.

  

domingo, 24 de novembro de 2013

MANGOLIN


Ao camarada Cesar Mangolin

Eu conheci um comunista.
Ele tem uma longa barba ruiva
E cabelos encaracolados.
Nunca trocamos muitas palavras,
Apenas, certa vez,
Falou-me de Gramsci e Althusser
E de como aprendera a fazer sabão
Quando estudava em um internato.
Seu discurso soa um tanto pessimista,
Mas a isso o desconto deve ser dado:
Ele estuda o Estado.
E apesar do pessimismo, ele sonha;
Mas veja bem:
Sonha de olhos arregalados!
A mim, ensinou-me muito,
Inclusive a sonhar acordado,
Coisa que eu já havia abandonado.
Não julgo ser necessário dizer mais nada,
Nem mesmo seu nome,
Muito menos procurar a rima
Para a última linha deste poema
Que acaba aqui.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

AUTORRETRATO DESTEMPERADO


Aos meus avós maternos, Vanda e Pedro,
Com imenso carinho e gratidão.

No autorretrato que me tempero
Costumo dizer,
Sem muito exagero,
Que na minha formação
Faltou sal,
Faltou açúcar,
Faltaram canela, alecrim, cominho e manjericão.
Esqueceram de temperar-me com pimenta-do-reino
E quase não me coraram com urucum,
A ponto de eu ter saído com essa cor,
Pálida,
Meio morta,
Meio viva também,
Porque ainda corre sangue.
Faltou o essencial,
Que é o açúcar e o sal,
A pimenta-do-reino triturada no moinho de Cainana,
A velha Vanda, minha avó,
E o Urucum, vermelho como minha bandeira,
Colhido por Pedro Carneiro, meu avô.
Não obstante,
Sobrou a crítica,
Transbordaram-me de realidade,
Cimentaram-me de fatos,
Que pouco sei interpretá-los.
Como consolo, restou-me as palavras,
Que por pouco não me foram tiradas
Em nome do estudo das leis,
Como queria o meu avô.
Sem sal e sem açúcar,
Nada de pimenta-do-reino, urucum, cominho, alecrim ou manjericão.
Sem leis também, graças ao fracasso do meu primeiro vestibular.
Mas irremediavelmente ligado às palavras,
E, ainda assim, é gozado observar como a vida é irônica,
De certo modo não trair, por completo,
O desejo do meu avô para comigo,
Que é o de defender os injustiçados,
Os escravos da modernidade,
Os marginalizados pelo capital.
Enfim, pratico,
Do meu jeito desajeitado,
A justiça das palavras,
Que é também sem sal,
Sem açúcar,
Sem cominho,
Sem Pimenta-do-reino, canela e urucum.
Eu e o meu desejo doido de mudar o mundo,
Procurando fazer justiça com as próprias palavras,
Buscando verbalizar a transformação social.
Mas nada, nada,
Nada disso justifica meu destempero,
Acho que no fundo, no fundo,
Eu sou bem parecido é com Pedro Carneiro.





quinta-feira, 26 de setembro de 2013

OS SÉCULOS XVIII E XIX E A IDEOLOGIA SECULAR



HOBSBAWM, Eric J. A ideologia secular. In: ______. A era das revoluções: Europa, 1789-1848. 20 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2006. cap. 13, p. 325-349.




Formado em História pela Universidade de Cambridge, membro do Partido Comunista da Grã-Bretanha, escritor de A era das revoluções, A era do capital, A era dos impérios e A era dos extremos (entre outros títulos) e professor de História na Universidade de Londres e na New School for Social Research de Nova Iorque, o historiador marxista Eric Hobsbawm é considerado como um dos maiores intelectuais do século XX.

Em A ideologia secular, décimo terceiro capítulo do livro A era das revoluções, Hobsbawm traça o plano de fundo político, filosófico, econômico, histórico e social que permeou e configurou a Europa dos séculos XVIII e XIX, mais precisamente as ideologias que emergiram e tiveram seu grande apogeu no intervalo dos anos de 1789 a 1848.

Logo no início do texto o autor esclarece que, embora a ideologia religiosa se destacasse por conta da quantidade, a qualidade confere à ideologia leiga ou secular a posição de destaque. Assim, a sociedade desse período se dividia, em um primeiro momento, em dois grupos distintos e antagônicos: os que aceitavam os rumos que o mundo estava-se conduzindo, neste caso os liberais burgueses e os revolucionários socialistas proletários, e os que não aceitavam essa direção, os quais se subdividiam em antiprogressistas revolucionários e os conservadores.    

No que concerne ao liberalismo clássico, este tem como o seu maior expoente a figura do escocês Adam Smith, o qual, a partir de sua principal obra, A riqueza das nações (1776), divulga a tese de que a livre concorrência entre os indivíduos, quando não interrompida e não controlada, leva os mesmos alcançarem a felicidade, a ordem social “natural” e, acima de tudo, produz o mais rápido aumento possível da riqueza das nações.

É válido destacar que, na política, a ideologia liberal não era nem tão coerente, muito menos tão consistente, pois a mesma se dividia entre o utilitarismo e as adaptações das doutrinas do direito natural e da lei natural. No entanto, todos defendiam uníssonos o direito à propriedade privada, direito este que, além de ser apresentado como “natural”, é consagrado como inalienável aos homens.

Assim sendo, os liberais concebiam a sociedade como um espaço constituído a partir de átomos individuais, os quais possuíam certas paixões e necessidades – nesse ponto, iguais a todos os outros –, e, para alcançá-las, competiam anarquicamente entre si, não reconhecendo, desse modo, limites ou direitos de interferência em suas pretensões, pois, só assim alcançariam a felicidade.

No entanto, não era isso o que se via à medida que o liberalismo ia sendo adotado, ainda mais quando David Ricardo, a partir de sua obra Princípios de economia política (1817), divulga as contradições do pensamento smithiano e faz cair por terra, por meio de sua teoria geral do valor como trabalho, a tese de que a riqueza das nações produzia-se por meio da competição anárquica dos indivíduos entre si, mas sim que era o próprio trabalhador quem a produzia.

Neste contexto, o autor argumenta que a ideologia liberal, em plena depressão econômica, salários decrescentes, pesado desemprego tecnológico e dentro de um período no qual o pauperismo se espalhava pela França e Inglaterra, perdia a sua força, ou grande parte dela; em outras palavras, os resultados sociais e econômicos mostraram a outra face do capitalismo, isto é, a exploração, por parte da burguesia, da classe proletária, o que favoreceu a emergência do socialismo.

Diferentemente do conservadorismo, o socialismo utópico, representado em grande medida pela figura do Conde Claude de Saint-Simon, não se voltava contra o industrialismo defendido desenfreadamente pelos capitalistas, mas pelo contrário, o saint-simonismo via no processo de industrialização o meio de fazer a sociedade avançar rumo ao socialismo, tendo em vista que o capitalismo criava seu próprio coveiro, o governo do proletariado.

O socialismo, assim como o liberalismo, acreditava na razão, na ciência e no progresso, porém, o seu modo de ver a sociedade era radicalmente oposto à concepção dos liberais, haja vista que não a pensava a partir do prisma individualista, cujo argumento central pautava-se na ideia do interesse próprio e a competição entre indivíduos como força motriz social, mas, antagonicamente, acreditava que o homem é, por natureza, um ser comunitário.

O socialismo científico, por seu turno, ganha força a partir dos trabalhos de Karl Marx e Friedrich Engels, mais precisamente por volta de 1848, quando é publicado o Manifesto Comunista, cuja tese central se resume à proclamação da derrubada violenta da burguesia e a tomada do poder pela classe trabalhadora, uma vez que a divulgação da inevitabilidade histórica demonstrava que o sistema político que correspondia aos interesses do proletariado era o socialismo ou comunismo. Assim, pautado no materialismo histórico, o socialismo se consagrou como o maior contraponto do liberalismo clássico, recebendo fortes contribuições da filosofia alemã, da política francesa e da economia inglesa.

O autor evidencia, ainda, que tanto o liberalismo, quanto o socialismo pretendiam alcançar o mesmo fim, isto é, um mundo onde reinasse a liberdade e do qual desaparecesse o governo coercitivo. O que os difere, no entanto, não é apenas a base teórica produzida e defendida por ambos, mas principalmente os meios pelos quais se pretendia alcançar tal máxima.

Em essência, este capítulo se divide em quatro partes, nas quais são traçadas as principais ideologias seculares afloradas a partir da dupla revolução: a primeira apresenta a ideologia liberal; a segunda, a ideologia socialista; a terceira, o conservadorismo e a posição política dos antiprogressistas revolucionários; e na quarta é apresentado um grupo de ideologias parcialmente equilibradas entre a progressiva e a antiprogressiva, ou seja, entre burgueses e proletários de um lado, e a aristocracia e as massas feudais do outro.

Sem dúvida a forma como o conteúdo do texto é organizado e apresentado, em grande medida por um viés dialético, cujo caráter descritivo é prevalecente e notório, confere-o um valor singular dentro da bibliografia historiográfica – o que, como se sabe, é próprio do estilo literário de Hobsbawm.

Convém frisar que em momento algum, no decorrer do capítulo aqui analisado, o autor em discussão insere elementos valorativos, no que diz respeito às ideologias por ele apresentadas, a ponto de torná-lo panfletário, o que talvez justifique a sua enorme receptibilidade dentro das academias.

A obra em questão é indicada tanto para o público de modo geral, quanto aos estudantes da área de humanidades, e constitui-se referência básica aos alunos de História e Ciências Sociais.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

REMOTO CONTROLE

“Amanhã é dia de nascer de novo!”
(Caio Fernando Abreu)

Cada nascer do sol é um novo assassinato. Às vezes morro mais de dez vezes por dia, mas sempre escapo. Veja bem, não falo de suicídio. Pelo contrário, todas as evidências apontam para homicídios qualificados.
Com o tempo, porém, adquiri certa experiência, e, dependendo do meu estado de espírito, só morro uma ou duas vezes ao dia; no máximo, três. No entanto, admito: houve dias em que fiquei todo fuzilado. Mas me recuperei.
Ligo a televisão de manhã e vou ao encontro de Bernardes, de repente, não infringindo nenhuma regra de etiqueta, suas palavras me acertam em cheio. Logo em seguida, sou baleado por Tralli. Um pouco mais tarde, os cientistas sociais Datena, Percival e Rezende metralham-me com suas teses criminais. No intervalo de um programa a outro, é praxe levar cacetadas de algum partido oportunista. O Tramontina, em seguida, enfia sua faca enferrujada nas minhas vísceras. Um pouco mais tarde, é a vez do Bonner, com muita elegância e imparcialidade positivista. Imediatamente, com toda a sua poesia-concreta, levo um tiro da Poeta. Jabor, ao acertar em cheio o meu coração, dá-me o xeque-mate e meu corpo se desfalece ao chão.
É. Morri. Mais uma vez.
De vagar, minha alma caminha até minha escrivaninha. Pega o Manifesto comunista, folheia O capital, abraça Neruda, guerrilha com Marighella, graceja Ramos, recita Brecht e Drummond, ama Amado, colhe rosas com Luxemburgo, toca o âmago de Saramago. Às vezes é necessário algo mais doce e paranóico, aí carece apelar para Clarice Lispector, Roberto Freire, Caio Fernando e Fernando Pessoa; quando a dor não passa, chama Cecília Meireles, Adélia Prado e Lúcia Miranda, que quase sempre vêm acompanhadas por Charles Baudelaire e Mario Quintana.
Em poucos instantes, dou-me por mim mais uma vez. Vivo!
É. Ressuscitei. Ressuscitaram-me.
Aquilo que vive em mim não morre tão fácil assim.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

BIANCA

Imagine poder contar toda a sua vida a alguém. Imagine, como retribuição, poder guardar todos os segredos dessa outra pessoa, também. Agora imagine compartilhar momentos incríveis, poder experimentar muitas coisas novas, juntos: a primeira cerveja, o primeiro conhaque, a primeira vodca, o primeiro cigarro, o primeiro porre, a primeira ressaca, o primeiro beijo, a primeira noite na barraca...
"Eram namorados?", perguntarão alguns, e eu os respondo: muito mais complexo que isso...
Não sei ao certo como desenrolar este rolo: é tão complicada nossa história! Cheia de vírgulas e de enrolas. E nesse momento me pergunto: onde foi que erramos? Por que paramos? Como escrever certo se mal conseguimos juntas nossas linhas tortas?
Solidão. É assim que me sinto agora. E, sem você, estar sozinho é uma desgraça.
Neste tempo em que estamos distantes, você não sabe, mas muitas vezes desisti. De mim. Da Causa. Dos outros. Houve dias em que não tomei banho, não me alimentei como convém às pessoas saudáveis e nem escovei meus dentes. Houve dias em que não fiz outra coisa do que assistir Harry Potter e ouvir Ricky Vallen interpretando Elis Regina. Mas jamais desisti de você. Porque sem você o melhor que há em mim se desmancharia feito promessas vazias, e, se não mais existisse o seu doce, tão doce, até o Caio, na minha boca, se amargaria.
Em dias difíceis, como este, gosto de pensar em suas borboletas... Voando, por aí... À procura de um lugar mais tranquilo, onde uma leoa possa dormir sossegada nos braços de um carneiro colorido.
Não sei o que realmente aconteceu, ou o que faltou acontecer. Solidão fálica? Carência afetiva? Recusa à "sozinhez" (continuo cultivando esta palavra)? Vingança por eu ter partido? Parti?
Enumero hipóteses, traço gráficos, aplico teorias metódicas, quantifico dados empíricos... Mas a concretude, em si, não tenho obtido.
"Um pênis é um pênis", disseram-me certo dia, e o mistério, por alguns instantes, pareceu ter se resolvido. No entanto, ao debruçar-me sobre essa questão com maior afinco, toquei o intangível: que um pênis é um pênis, não posso negar, mas até que se prove o contrário, um amigo é um amigo.