Em memória de Brecht e Baudelaire.
Se os animais fossem homens, eles criariam para si a imagem
de um deus animalizado, e a esculpiria, além de no inconsciente animal, tanto no bronze quanto no barro.
Também haveriam de criar, por conseguinte, evangelhos e dogmas
mórbidos, talvez até profecias apocalípticas e hinários, mas com toda a
certeza, mandamentos vários.
Ainda teriam aqueles que sairiam pelas ruas pregando a
verdade universal e imutável do deus-anta, do deus-cão, do deus-porco ou quem
sabe do deus-macaco. Mas se os animais fossem homens, provavelmente elegeriam o
leão como o seu representante divino, por este melhor justificar seu asco.
Se os animais fossem homens, eles perseguiriam
outros animais, inclusive de sua própria espécie, que recusassem a sua
profissão de fé. Para evitar futuras crises céticas, catequizariam os pequenos,
tão ingênuos!
Por meio da promessa
de uma segunda vida paradisíaca, ou o que é pior, pelo medo da punição ígnea em
outro plano, converteriam-se, à sua ortodoxia religiosa, os animais mais
carentes de razão.
É claro que não haveria de faltar o dízimo celestial, tão animal!
Se os animais fossem homens, mártires necessitariam de ser
criados, e seus nomes habitariam os mais variados compêndios históricos, ao
lado de uma possível Inquisição, Reforma e Contra-reforma.
Se os animais fossem homens, a imaginação governaria o mundo.