sábado, 12 de janeiro de 2013

BÁSICO


Dinheiro? Não tenho.
Felicidade? Muito menos...
Amor? Só de remendos!

ÍCARO

Dedico este poema à Neta.
 Em memória de Ícaro. 



Através da janela eu via, ouvia, sentia.
Através da janela eu olhava, observava, chorava.
Através da janela eu sentia, compreendia, sofria.
Através da janela eu calava, arfava, orava.

Lavei-a com minhas lágrimas naquele dia,
Depois a sequei com o meu silêncio que falava,
E ele falava de uma louca chamada Nostalgia
Que fugira do manicômio que a atormentava.

Que triste destino é o dela que morrendo, vivia;
Bem parecido com o da mãe que em silêncio, gritava.
Sim, ela gritava para não escutar o silêncio que a afligia,
E o seu grito mudo, não tão mudo assim, me incomodava.

Através da janela as suas lágrimas me entristeciam;
Aquelas lágrimas de mãe órfã era um banho que a vida lhe dava.
Mas desse banho ninguém quer tomar, ela também não queria,
Mas a vida não lhe perguntou se queria, e no mar de lágrimas ela mergulhava.

Sem querer, mergulhei também em seu dilúvio por muitos e muitos dias,
E naquela chuva de lágrimas eu vi que a sua dor aos poucos se amenizava,
E quando passa a chuva, logo nasce um arco-íris trazendo de volta a alegria,
Uma alegria diferente da que já provara, mas isso aos poucos lhe confortava.

Nunca mais tornei a passar por aquela triste janela,
Que me serviu de óculos para a minha miopia,
Mas sei que o sal dos meus olhos de solidificou nela
E ainda traz marcas daquele marcável dia.

E aqui estou eu trazendo-lhe minha poesia,
A qual não sabe um terço do que a vida lhe fez passar,
Mas abrace-a como o seu filho lhe abraçaria,
Com um daqueles abraços que só os filhos sabem dar.

COM APENAS UMA BALA


Um salto...
Um asfalto...
Um assalto...
Um ato...
Um grito alto...
Silêncio profundo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

SE OS ANIMAIS FOSSEM HOMENS


Em memória de Brecht e Baudelaire.

Se os animais fossem homens, eles criariam para si a imagem de um deus animalizado, e a esculpiria, além de no inconsciente animal, tanto no bronze quanto no barro.
Também haveriam de criar, por conseguinte, evangelhos e dogmas mórbidos, talvez até profecias apocalípticas e hinários, mas com toda a certeza, mandamentos vários.
Ainda teriam aqueles que sairiam pelas ruas pregando a verdade universal e imutável do deus-anta, do deus-cão, do deus-porco ou quem sabe do deus-macaco. Mas se os animais fossem homens, provavelmente elegeriam o leão como o seu representante divino, por este melhor justificar seu asco.
Se os animais fossem homens, eles perseguiriam outros animais, inclusive de sua própria espécie, que recusassem a sua profissão de fé. Para evitar futuras crises céticas, catequizariam os pequenos, tão ingênuos!
Por meio da promessa de uma segunda vida paradisíaca, ou o que é pior, pelo medo da punição ígnea em outro plano, converteriam-se, à sua ortodoxia religiosa, os animais mais carentes de razão.
É claro que não haveria de faltar o dízimo celestial, tão animal!
Se os animais fossem homens, mártires necessitariam de ser criados, e seus nomes habitariam os mais variados compêndios históricos, ao lado de uma possível Inquisição, Reforma e Contra-reforma.
Se os animais fossem homens, a imaginação governaria o mundo.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

MACHUCADOS


Em memória de Jorge Amado.


Jamais aponte o dedo na cara da ferida-humana e diga “você é o culpado!”. Ora, como disse, é só uma ferida, quase sempre inflamada, putrificada, a jorrar pus na cara da gente.
Este teu dedo apontado, suponho que o indicador, impede-te de ver a gênese do machucado, as balas perdidas, os insultos achados, as pauladas pedagógicas ganhadas a troco de nada e o olhar frio e usurpador dos verdadeiros culpados.
Agora, que já sabes o outro lado da verdade – porque a verdade é multifacetada –, aprende, de uma vez por todas, e sem drama, que temos nossa parcela de culpa na produção de chagas-humanas.
Lembra-te, sempre que possível, sempre que a pós-modernidade esquecer de te engolir, que os ditos métodos corretivos aplicados pela “Justiça”, as casas de recuperação, os reformatórios e os abrigos de reclusão social nada mais são do que indústrias a fabricarem feridas-sociais das quais te falo.
Cuidado, muito cuidado com o teu dedo apontado. Não te esqueças, em hipótese alguma, que nada mais são do que feridas malogradas, não passam de reles machucados – às vezes putrificados, sujos, abandonados, ausentes de carinho, desconhecedores da compaixão, vítimas de seus próprios crimes praticados, mas sempre machucados. 

domingo, 16 de dezembro de 2012

SOBRE OS RÓTULOS


Bicho batizado
É bicho meio domado.
Fera nomeada
É fera 50% delicada.
Homem etiquetado
É homem condicionado.
Deus salve os rótulos!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

ANAGLIPTOGRAFIA


Eu decodifiquei os hieróglifos de tua alma,
Li a mensagem subliminar de tuas taquicardias,
Recitei o grito embargado em teu pomo de adão
E soletrei tua cartilha libidinosa, com ousadia.

Eu cavalguei sobre teus sonhos infames,
Pisoteei o sagrado do teu lado profano,
Colhi teu fruto na estação imprópria
E brinquei com teu brinquedo ufano.

Eu penetrei na impermeabilidade da tua pele,
Regozijei-me do gozo que o gozo tem,
Brindei, com tua cicuta, os infortúnios da vida
E anteontem busquei-te no corpo de outrem.

Quase te achei no gemido de um guarulhense,
Mas faltou o quentume do teu olhar baiano,
Aliás, acho que é dele de quem sinto mais saudade:
Afinal, o que é o amor, senão uma vaga projeção do âmago humano?