segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

BEIJO DIVINO

Que minhas palavras subam ao céu e beijem a boca de Deus, e que depois elas caiam de mansinho, em gotas de poesia, em cima dos lábios que um dia eu beijei. E espero que desse modo a minha poesia, tocada pelo hálito divino, consiga tocar, de uma vez por todas, aquele coração que, sem ao menos pedir permissão, tocara o meu.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

TEMOR DE PAI

   A pior coisa que se pode fazer a um poeta é desprezar os seus poemas.
   Os poemas são filhos que a vida nos dá e que, sem saber direito quando e por que, eles alcançam a maioridade; outros se autoemancipam e saem pelo mundo como filhos pródigos, e quando voltam para casa, os pais os recebem e dão uma grande festa em comemoração.
   O meu coração de pai já está começando a sentir que à hora inevitável, a da partida, está se aproximando.
   Os meus filhos estão crescendo, evoluindo gradativamente. Sei disso por causa da voz deles, que está começando a engrossar, e da postura corpórea. O crescimento dos meus filhos me deixa feliz e, ao mesmo tempo, me preocupa, pois ainda não sei como o mundo irá recebê-los nem sei onde serão capazes de adentrar.
   Se for ao coração do homem, bem..., essa possibilidade também pode ser perigosa, ou talvez não. Talvez seja a minha inútil preocupação de pai – dessas preocupações que não nos leva a lugar algum, a não ser a uma profunda depressão.
   Os meus filhos estão crescendo, mas eu não devo me preocupar, pois lhes dei a melhor educação que um pai pode dar: criei-os livres, autônomos, e assim se tornaram críticos – e poemas críticos o mundo não pode amaldiçoar.
   – Cresçam! Meus poemas! Cresçam! E depois venham visitar este velho pai – que não é tão velho assim – para que aquela grande festa eu possa dar.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

PROPAGAÇÃO


Quando sou lido em voz alta, não passo de uma mera onda sonora que aos poucos se desfaz em meio a tantos outros sons. Mas quando você me lê silenciosamente, transformo-me naquilo que mais gosto de ser: pensamento e silêncio.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O CÚMULO DA RESILIÊNCIA

A faculdade é a própria casa da moeda. O curso é decepcionante. A grade curricular é uma palhaçada. O corpo docente..., bem..., nem vou falar, porque uma parte até que dá para aproveitar. A profissão é desprivilegiada. O salário é vergonhoso. Os alunos, da plateia, fingem aprender alguma coisa. Os professores, das jaulas, fingem ensinar. E os chefões – de chicotes nas mãos – fingem... Se bem que estes nem precisam mais fingir nada: já estão todos domados mesmo!
É..., finalmente o CIRCO ANHANGUERA está montado: lonas, picadeiro e plateia.
Horário de funcionamento: isso depende, mas eu aconselho das 8h às 10h e 30min.
Dias de funcionamento: Isso também depende, mas geralmente são quatro vezes na semana.
Quer participar do espetáculo? Então venha comigo, e se eu trouxer você e mais outros para cá, eu posso até ganhar um tablet, ou ainda, quem sabe, um notebook, isso não é bom?! Mas pense muito bem, porque aqui se fala a linguagem do “X VEZES, SEM JUROS, NO BOLETO”.
Atestado de matrícula? Uma vez, sem juros, no boleto.
Respirou no momento indevido? Três vezes, sem juros, no boleto.
Mudou de carteira? Quatro vezes, sem juros, no boleto.
Disse o que não devia? Cinco vezes, sem juros, no boleto.
Comparou a faculdade com outra? Sete vezes, sem juros, no boleto.
Falou mal da instituição? Isso é quase inafiançável, mas nada que dez vezes no boleto não resolva.
Protestou? Xiiiiiiii... Isso só à vista.
Ah! E ainda tem mais: no mínimo, cem cabeças por sala – isso é que é interação: VIVA VYGOTSKY!
Agora imagine aí uma aula de educação física dentro da quadra: são cem pessoas correndo atrás de uma única bola! Pode crer, nem a Seleção Brasileira de Futebol tem chance alguma contra esse time.
Eu não gosto desse time. Nem do jogo. Muito menos do técnico. Na verdade, eu odeio esse circo! Mas continuo na disputa, e assisto, com um sorriso cínico nos lábios (sorriso cínico nos lábios? Oito vezes, sem juros, no boleto), assisto esse jogo por causa delas, as criancinhas: são elas que me fazem continuar. Embora eu saiba que só quem ganha o troféu da Copa Anhanguera é a própria Anhanguera. Ela e mais ninguém.




Obs.: Confira aqui a reportagem que o Jornal do Parlamento da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP) fez a respeito da demi$$ão de professores do Grupo de Faculdades Particulares Anhanguera.


Confira aqui a minha "carta de retratação" perante a faculdade.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

EU ERA UM ANJO

Vim à Terra como um anjo. Minha mãe, temendo que eu voasse, cortou minhas asas. Minha irmã, que sempre gostara do brilho das coisas, furtou minha auréola. Por fim foi a vez de Deus, que após se dar conta de que me fora tirado os apetrechos de arcanjo, decidiu presentear-me com um coração. E foi desse modo que eu me tornei um menino de verdade: por meio das perdas, transmutei-me em humano. Mas de uma coisa eu estou seguro: a essência angelical da minha poesia ninguém a rouba de mim. Entretanto, acredite: se fosse me permitido escolher o que ser durante a minha estadia pela Terra, escolheria, sem dúvida alguma, ser anjo novamente, não apenas por causa da aparente liberdade concedida pelas asas,  menos ainda por causa do estonteante brilho da auréola, mas porque lhe é dispensável a presença daquilo que bate e nos bate, e que carinhosamente batizaram de coração.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

TAMPA E PANELA

Para cada panela, duzentas tampas – foi bem assim, com essas palavras, que você me disse, não foi? No entanto, eis que me surgiu uma dúvida: para cada tampa há duzentas panelas também? Preciso ser breve e ir direto ao assunto: o problema de tudo isso é que a panela que amo só se contenta com um jogo variado de duzentas tampas, e eu descobri, agora a pouco, que sou tampa de uma só panela – panela essa, meu bem, que tem que estar disposta a renunciar às outras cento e noventa e nove tampinhas, porque quando eu quero, baby, pode crer, eu valho por mil.

ATEU

Sei que um dia as minhas palavras beijarão os lábios de quem as me deu. E sei também que as mesmas tocarão de mansinho o selvagem coração que ousara tocar o meu. E nesse dia, por certo, meus beijos grafados em letras cursivas haverão de dizer que eu era teu. Só teu. Eu.