sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

TEMOR DE PAI

   A pior coisa que se pode fazer a um poeta é desprezar os seus poemas.
   Os poemas são filhos que a vida nos dá e que, sem saber direito quando e por que, eles alcançam a maioridade; outros se autoemancipam e saem pelo mundo como filhos pródigos, e quando voltam para casa, os pais os recebem e dão uma grande festa em comemoração.
   O meu coração de pai já está começando a sentir que à hora inevitável, a da partida, está se aproximando.
   Os meus filhos estão crescendo, evoluindo gradativamente. Sei disso por causa da voz deles, que está começando a engrossar, e da postura corpórea. O crescimento dos meus filhos me deixa feliz e, ao mesmo tempo, me preocupa, pois ainda não sei como o mundo irá recebê-los nem sei onde serão capazes de adentrar.
   Se for ao coração do homem, bem..., essa possibilidade também pode ser perigosa, ou talvez não. Talvez seja a minha inútil preocupação de pai – dessas preocupações que não nos leva a lugar algum, a não ser a uma profunda depressão.
   Os meus filhos estão crescendo, mas eu não devo me preocupar, pois lhes dei a melhor educação que um pai pode dar: criei-os livres, autônomos, e assim se tornaram críticos – e poemas críticos o mundo não pode amaldiçoar.
   – Cresçam! Meus poemas! Cresçam! E depois venham visitar este velho pai – que não é tão velho assim – para que aquela grande festa eu possa dar.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

PROPAGAÇÃO


Quando sou lido em voz alta, não passo de uma mera onda sonora que aos poucos se desfaz em meio a tantos outros sons. Mas quando você me lê silenciosamente, transformo-me naquilo que mais gosto de ser: pensamento e silêncio.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O CÚMULO DA RESILIÊNCIA

A faculdade é a própria casa da moeda. O curso é decepcionante. A grade curricular é uma palhaçada. O corpo docente..., bem..., nem vou falar, porque uma parte até que dá para aproveitar. A profissão é desprivilegiada. O salário é vergonhoso. Os alunos, da plateia, fingem aprender alguma coisa. Os professores, das jaulas, fingem ensinar. E os chefões – de chicotes nas mãos – fingem... Se bem que estes nem precisam mais fingir nada: já estão todos domados mesmo!
É..., finalmente o CIRCO ANHANGUERA está montado: lonas, picadeiro e plateia.
Horário de funcionamento: isso depende, mas eu aconselho das 8h às 10h e 30min.
Dias de funcionamento: Isso também depende, mas geralmente são quatro vezes na semana.
Quer participar do espetáculo? Então venha comigo, e se eu trouxer você e mais outros para cá, eu posso até ganhar um tablet, ou ainda, quem sabe, um notebook, isso não é bom?! Mas pense muito bem, porque aqui se fala a linguagem do “X VEZES, SEM JUROS, NO BOLETO”.
Atestado de matrícula? Uma vez, sem juros, no boleto.
Respirou no momento indevido? Três vezes, sem juros, no boleto.
Mudou de carteira? Quatro vezes, sem juros, no boleto.
Disse o que não devia? Cinco vezes, sem juros, no boleto.
Comparou a faculdade com outra? Sete vezes, sem juros, no boleto.
Falou mal da instituição? Isso é quase inafiançável, mas nada que dez vezes no boleto não resolva.
Protestou? Xiiiiiiii... Isso só à vista.
Ah! E ainda tem mais: no mínimo, cem cabeças por sala – isso é que é interação: VIVA VYGOTSKY!
Agora imagine aí uma aula de educação física dentro da quadra: são cem pessoas correndo atrás de uma única bola! Pode crer, nem a Seleção Brasileira de Futebol tem chance alguma contra esse time.
Eu não gosto desse time. Nem do jogo. Muito menos do técnico. Na verdade, eu odeio esse circo! Mas continuo na disputa, e assisto, com um sorriso cínico nos lábios (sorriso cínico nos lábios? Oito vezes, sem juros, no boleto), assisto esse jogo por causa delas, as criancinhas: são elas que me fazem continuar. Embora eu saiba que só quem ganha o troféu da Copa Anhanguera é a própria Anhanguera. Ela e mais ninguém.




Obs.: Confira aqui a reportagem que o Jornal do Parlamento da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP) fez a respeito da demi$$ão de professores do Grupo de Faculdades Particulares Anhanguera.


Confira aqui a minha "carta de retratação" perante a faculdade.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

EU ERA UM ANJO

Vim à Terra como um anjo. Minha mãe, temendo que eu voasse, cortou minhas asas. Minha irmã, que sempre gostara do brilho das coisas, furtou minha auréola. Por fim foi a vez de Deus, que após se dar conta de que me fora tirado os apetrechos de arcanjo, decidiu presentear-me com um coração. E foi desse modo que eu me tornei um menino de verdade: por meio das perdas, transmutei-me em humano. Mas de uma coisa eu estou seguro: a essência angelical da minha poesia ninguém a rouba de mim. Entretanto, acredite: se fosse me permitido escolher o que ser durante a minha estadia pela Terra, escolheria, sem dúvida alguma, ser anjo novamente, não apenas por causa da aparente liberdade concedida pelas asas,  menos ainda por causa do estonteante brilho da auréola, mas porque lhe é dispensável a presença daquilo que bate e nos bate, e que carinhosamente batizaram de coração.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

TAMPA E PANELA

Para cada panela, duzentas tampas – foi bem assim, com essas palavras, que você me disse, não foi? No entanto, eis que me surgiu uma dúvida: para cada tampa há duzentas panelas também? Preciso ser breve e ir direto ao assunto: o problema de tudo isso é que a panela que amo só se contenta com um jogo variado de duzentas tampas, e eu descobri, agora a pouco, que sou tampa de uma só panela – panela essa, meu bem, que tem que estar disposta a renunciar às outras cento e noventa e nove tampinhas, porque quando eu quero, baby, pode crer, eu valho por mil.

ATEU

Sei que um dia as minhas palavras beijarão os lábios de quem as me deu. E sei também que as mesmas tocarão de mansinho o selvagem coração que ousara tocar o meu. E nesse dia, por certo, meus beijos grafados em letras cursivas haverão de dizer que eu era teu. Só teu. Eu.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

MEU BALANCETE DE FÉRIAS


Ponho-me agora na tarefa de analisar, avaliar e anotar alguns dados que constituirão o meu “balancete de amigos”.
Balancete, como se sabe, é o levantamento contábil relativo a um período inferior a um ano, no qual é analisado tudo aquilo que é notório dentro deste intervalo de tempo.
Balancear amigos não é algo fácil nem singelo. Entretanto é gratificante ver o resultado final e saber que alguns sentimentos são imutáveis. Outros, porém, são passageiros como folhas secas que o sol tosta e o vento, seguindo o seu deferimento, as leva para os colecionadores de folhas secas. Triste sina a dos colecionadores de folhas secas!
A vida é viva. Por isso é que é tão importante desprender-se daquilo que um dia já fora vida e deixar que o vento – amigo das pessoas vivas – as leve. Dessa maneira é possível plantar algo novo, verde e esperançoso, e não perder tempo com aquilo que é inaproveitável para as nossas vidas.
Para dar continuidade ao meu levantamento, quero deixar claro que não citarei nomes por acreditar na ética que a cada dia parece desaparecer, entretanto usarei a metáfora como forma de me expressar sem receios de coibir-me e sem ter que abrir mão da sinceridade que tanto incomoda as folhas secas. E já que falei tanto delas, que tal começar por esses seres tão secos?
As folhas secas um dia já foram plantas, e eu as reguei com a mais pura “água” que um amigo pode oferecer. Mas o “jardineiro” teve que se ausentar por dez meses e essas plantas, que agora são folhas secas, fixaram de mais os seus olhos no sol, fazendo com que a intensidade do calor as deixassem cegas e secas, e então veio o vento e as levou dentro do seu redemoinho...
No vazio do jardim que elas deixaram, semeei novas sementes que já brotaram e que passam uma parte do dia conversando comigo. Já avisei a esses pequenos brotos que, mais uma vez, terei que me ausentar por um tempo ainda indefinido, e elas já sabem que não devem fixar os olhos no sol, porém podem receber, sempre que precisarem, um pouco do calor desse astro deveras luminoso.
Há também aqueles amigos que mudaram um pouco durante esse tempo de mudanças em que eu estive ausente, mas quem não muda com o tempo, não é verdade? A flor que se vê hoje, por exemplo, não será a mesma que nascerá amanhã juntamente com a luz do sol, assim como a flor que nascerá amanhã não será a mesma daqui uma semana.
Mudar faz parte do ciclo da vida. O que não muda, não evolui. Por isso é que eu considero extremante importante essa “metamorfose” que ocorrera com alguns dos meus amigos que também são tão importantes para mim.
Todos os jardins mudam com a mudança das estações, e, afinal, foram quatro estações que eu passei longe das minhas “rosas” e dos meus “girassóis”; foram quatro estações de lágrimas, risos, perdas e conquistas.
Mudar a aparência faz parte de toda a natureza, mas mudar a essência é algo que a minha poesia não consegue entender – ou se entende, não consegue explicar.
Toda essa mudança serviu para eu ver quem eram os que se diziam meus amigos, quem são os que hoje se dizem que são e quem são os que sempre serão meus eternos amigos.
Há muito a falar a aqueles que se distanciaram um pouco (ou será que fui eu quem me distanciei?), mas a minha voz não consegue chegar até eles, e é por esta razão é que eu utilizo a minha poesia para dizer-lhes que vocês sempre terão um lugar no meu “jardim”.
Alguns não sabem, mas a cada dia eu rego a nossa amizade com uma frase no Orkut ou Facebook, com um poema que eu fiz e que só eu e o meu computar tem conhecimento, com uma palavra que era para ser dita, através de uma ligação restrita, e se perdeu em meio à timidez e ao medo da resposta que viria do outro lado da linha.
Por fim, quero agradecer aquelas plantas que se encontram cada vez mais enraizadas, firmes e fortes, pois são vocês que me dão força para eu continuar no meu caminho que, aparentemente, só é feito de flores, mas vocês sabem o quanto é espinhosa a estrada que os meus sonhos me obrigaram a trilhar.
Obrigado a todos vocês que fizeram e fazem parte da minha história de vida. Espero que as minhas palavras tenham conseguido dizer o que a minha voz não teve coragem de falar.
Quero que ainda saibas que estas palavras que acabaste de ler estão todas trancafiadas no silêncio do meu coração, e se elas chegaram até você é porque nem mesmo o silêncio consegue domar a força as palavras.
Gostaria de pedir desculpas a todos os que ficaram sem receber essa mensagem: ou foi o meu esquecimento que me impediu de lhes entregar, ou foi o vento que vos carregara por um caminho que a minha poesia jamais irá percorrer.