quinta-feira, 1 de setembro de 2016

NADA A TEMER


Meu coração é um coquetel molotov:
Ao menor contato com fogo
Incendeia-se e se explode.
Ao chão, fragmenta-se em estilhaços
Que ferem os que ousam tocá-los.
Meu coração está aos cacos!

Minha alma é movida a libido e a álcool:
Ela própria é quente e volátil.
Dentro de si há um bar impróprio:
Eros embebeda-se de amor e vomita ópio;
Thanatos embriaga-se de dor e destila ódio.

Minha psique é um signo linguístico
Cujo significante reduz-se a gemidos edipianos.
Seu significado, porém, não está escrito
No pensamento freudiano.

Meu espírito vive em estado de sítio,
Todo ele é confusão e grito.
Com meu povo, com minha gangue
Vou pras ruas com minhas bandeiras:
Uma é colorida, tão bonita!
A outra é vermelha, feito sangue.

Tenho Sol e Lua em Capricórnio,
Mercúrio e Vênus em Sagitário:
Minha rebeldia se ascende em Aquário.

Por isso nado.
Mesmo faltando fôlego,
Mesmo estando fraco,
Ainda que sozinho, eu nado.
Sem a companhia de Deus ou de Iansã.
Mas como escapar deste pântano gelado
Se o monstro das águas, o Leviatã,
Ergue-se de dentro do lago?

Minha voz fina grita.
Indignada, nada tem a temer.
E por que temeria?
Quando estou prestes a morrer,
Faço nascer uma poesia.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

OREN HASSON


Choro por mim, por ele e pela mãe dele. E também pelo pai, pelos filhos e pelos espíritos e santos.
Choro por mim por não ter alcançado, ainda, o estado de espírito no qual não será mais preciso chorar. Choro, sobretudo, porque me dei conta de que ainda me importo, e por me importar não consigo fazer outra coisa a não ser isso.
Choro por ele porque ele chora por mim e pela mãe; porque não sabe transitar por esta encruzilhada a não ser vertendo lágrimas, quando, na verdade, só é preciso uma tesoura e coragem, para cortar o cordão umbilical que os liga. Choro por ele porque ele é um menino e meninos choram, e homens também; choro porque eu não queria vê-lo chorando, embora eu mesmo o faça chorar.
Choro pela mãe dele porque destruímos, com um só golpe, o seu sonho cristão. Choro porque ela tem medo e chora calada na calada da noite, sem ninguém para enxugar suas lágrimas. Choro porque involuntariamente sou responsável por seu choro, ainda que intimamente eu não carregue esta culpa.
Choro também por Deus, que nesse momento rir de nós, ao descascar cebolas. Choro por Deus porque ele é fraco, e tal como um vírus, precisa de um hospedeiro para se reproduzir. Choro porque ele poderia ter chorado um pouco mais, o bastante para afogar Noé, o patriarcado e a sua arca heterossexual.
E choro, por fim, pela humanidade, que de tanto chorar, secou-se.


sábado, 28 de novembro de 2015

A MUDEZ HEREDITÁRIA


Eram palavras,
Vozes e sons,
Todos harmônicos,
Em relativa cumplicidade.
Mas então veio a crise,
A descoberta,
A saída do armário.
E junto com ela
Vieram os gritos,
O turbilhão de vozes,
O Vozerio,
A algazarra,
As agressões,
Físicas e morais.
Os agudos agravaram-se.
Os graves agudizaram-se.
Com o tempo
A feira de insultos deu lugar ao silêncio.
As palavras se calaram.
Prenderam-se no fundo da garganta,
No calabouço da alma.
As vozes foram abaixando,
Perdendo sua potência vocálica,
Até alcançar o completo silêncio,
A mudez hereditária,
Tanto do pai quanto do filho.
Aí veio a morte,
A morte da palavra,
E com ela a negação de ser humano.


sexta-feira, 21 de agosto de 2015

PARA ELE



Gabriel...
Nome de anjo,
Corpo de marmanjo,
Alma de mel.
A fala me traz a terra,
O falo me leva ao céu.
Entrego-me, fiel,
Ao teu corpo despido,
Com a língua abaixo do umbigo:
Sou teu réu.

Luiz...
Luz e lis.
Minha lousa,
Meu apaga-dor
E meu giz.
Homem e menino,
Manso e traquino:
Meu petit.
Meu chocolate e meu feijão,
Criança do meu coração,
Coração de cana-de-açúcar,
Catuaba e jujuba,
Minha bandeira de Cuba,
Meu Mc Lanche Feliz.


segunda-feira, 6 de julho de 2015

FATO

Para Gabriel Luiz.

CHATO –
Pra rimar,
Bem que poderia ser um hiato,
Mas é só um dígrafo,
Que não pode passar pelo polígrafo,
Ou viraria
GAIATO.


sábado, 6 de junho de 2015

PÓS-MODERNISMO


Para Thauane Rocha e José Brendo, com todo amor.


Os pós-modernos estão certos. Digo isto porque neste momento sou um deles. Toda racionalidade está de fora, porque somos útero e irresponsabilidade. Minha amiga está dançando, a verdade é tão grande que o pensamento a me tirou. Faço poema como aprendi a fazer vida, vivendo. “Preciso de mais água”, falou-me, esquecendo-se que de água precisamos todos nós. O corretor ortográfico corrige a palavra: graças a ele todo um século está salvo e livre de pesquisas inúteis. Uma palavra, mil significados. Onde há gente que fala a mesma língua? Escrevi um milênio e ninguém notou. Foda-se: a eternidade é relativa. Pessoas dançam à minha frente, mais pedidas do que eu, e um boy bem lindinho toma sua Catuaba olhando pra mim. A sexualidade permanece e eu já não estou mais aqui. O inconsciente é lindo, mas cheira a loucura, porque não se passa no tempo certo. Minha amiga permanece conversando. Meu outro amigo reaparece. A loucura é palpável!  Estou mais ciente, mas os significados ainda me falham. Fumei. Cheiro a cigarros. As pessoas dançam. Séculos e séculos dançam os pavões... Darwin tinha razão. Isso tudo era pra ser uma retrospectiva e eu só consigo falar do agora. Era pra ser um conto, mas perdi as contas. Um conto de alguém que fumou e bebeu. Bebi nada, a bebida é quem me lambeu. Uma segunda leitura da vida, é só o que peço, para que tudo permaneça como está. A vida é bonita; parada, mais linda ainda. Registro tudo isso porque quero prendê-la. Já que me prendeu neste corpo, que sofra do mesmo mal, ficando presa aqui, sim. Lembro-me de Ana C, e aqui coloco o ponto final: fim.


quinta-feira, 7 de maio de 2015

CANSADO



Estou cansado
Das mentiras,
Das inverdades,
Das discussões,
Dos discursos,
Do curso,
Da vaidade.

Estou cansado
Da fala mansa dos ladrões,
Do nosso silêncio demente,
Da lousa que derruba cifrões,
Da fé tola dos crentes,
Do giz que explode canhões,
Do guache demasiado inocente.

Estou cansado
Das renúncias,
Das quimeras,
Do espírito sem ação,
Da esperança que não me espera.

Estou cansado
Da Justiça trocada por mercadoria,
Do direito contrabandeado,
Da corrupção nossa de cada dia
E do pão que brota dela 
Por todos nós amassado.

Estou cansado...
Tudo é comércio,
Tudo é mercado.
Minha alma gripada grita por gente
Mas gente é força de trabalho.

Estou cansado
Da exposição de gráficos,
Da manipulação de dados,
De estatísticas estéreis,
De preencher formulários,
Do papel complacente,
Dos laudos.

Estou cansado
Da caneta que vai salvar o planeta,
Da secretária do Secretário,
Da política e sua punheta,
Do analfabetismo legitimado:
Meu cu também é pré-silábico.

Perdoe-me o baixo calão,
É que estou cansado...
Da alfabetização,
Dos homens casados,
Dos armários no armário,
Dos héteros que beijam veado,
Das falas,
Das filas,
Do falo.

Estou cansado
Desta esquizofrenia,
Da injustiça forjada em aço,
Da burocracia,
Do maço de almaço,
Das escolas,
Das esquinas,
Das esmolas,
Da purpurina,
Dos meninos,
Das meninas,
Do papel timbrado,
Da Dona Carochinha,
Do Estado.


domingo, 11 de janeiro de 2015

ASSIM, SIM


"Vi conde Drácula sugando o sangue novo e se escondendo atrás da capa."
(Raul Seixas, in Eu nasci há dez mil anos atrás)

Às escuras,
Regado ao breu,
No sigilo,
Total discrição...
Assim pode,
Porque assim ninguém vê, não.

Com suor,
Gemidos baixos,
Em silêncio,
A pegação...
Assim pode,
Porque assim não se ouve, não.

Portas trancadas,
Tevê ligada,
Com saliva e com afeto,
A penetração...
Assim pode,
Porque assim não é pecado, não.

Em segredo,
À luz do medo,
Macho X Macho,
A dominação...
Assim pode,
Porque assim reza a tradição.

sábado, 27 de dezembro de 2014

OITO HORAS


Para Robson Pinheiro.


Deixei minha dignidade, se é que isso existe, espalhada pelos cômodos de um apartamento, lá no alto, no décimo nono andar de um edifício, em Santana. Todavia sei que isso pode ser contado pelo menos de quatro maneiras distintas.
A primeira delas é sob a ótica classista, a partir da qual o periférico encontra o pequeno burguês e travam entre si uma luta erótica. Do embate, como síntese, tem-se um misto de dor, prazer e emancipação, e tudo isso cabe na palma da mão.
Também é possível narrar esse acontecido lembrando, apenas, que a vida às vezes estica bem a palma da sua mão, e abrindo bem os seus dedos, dá com toda força na nossa cara, dizendo: “vai viver, Coração!” Eu fui. Ai daqueles que não vão.
Seguindo os princípios da etnografia pós-moderna e indo além da observação participante, essa história pode ser encarada como um texto que pode ser lido como uma experiência antropológica em que objeto e sujeito, sujeito e objeto, ambos se afetam e fazem de todos os cômodos um campo de pesquisa.
Por fim, pode-se dizer que a quarta maneira de contar como se perde a dignidade, para além do moralismo, é anunciando que no princípio era o verbo, e o verbo era de carne, e a carne tinha suor, testosterona, sabor e aroma.




quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O MUNDO, EU E DEUS


Para Engels, com prazer e dor.
Aprendi a ser espinho.
Dói tanto quanto ser rosa.
No fim, sangramos todos,
Sem poesia nem prosa.
Com o tempo
Até as rosas secam;
Os espinhos, ao contrário,
Secam-se desde o berço.
O mundo, eu e deus:
Seco, seco, seco!




terça-feira, 28 de outubro de 2014

À "CLASSE INTELECTUAL E PRODUTIVA"


Aqueles que etnocentricamente se autoproclamaram como "classe intelectual e produtiva" são os mesmos que num discurso perpassado de ódio, poder e dominação buscam condenar os demais à ignorância e a improdutividade, posto que se há uma "classe intelectual" é porque se pressupõe que haja, também, uma "classe néscia" (em todos os sentidos da palavra: sem discernimento, desprovida de conhecimento, estúpida, ignorante, incompetente, inepta e incapaz).
Diante disso, indago: o que vocês entendem por intelectualidade? O que leem? O que escrevem? Produzem conhecimento científico reconhecido, autorizado e legitimado pelos pares-concorrentes do campo (para usar uma expressão do Bourdieu)? E, por fim, pergunto: o que difere o discurso "intelectual" de vós do discurso fascista?
O "fazer ciência", oh elite catedrática e laboriosa, pressupõe o "abandono" (pelo menos parcial) de prenoções e preconceitos, o que, no entanto, não reflete na "produção discursiva pseudocientífica" de vocês.
No que compete à figura da presidenta Dilma, recém eleita legitimamente pelo sistema democrático burguês, não lhes é pedido que a estimem muito menos que se orgulhem dela, contudo, como estamos diante de uma classe "naturalmente" intelectual, portadora de um capital cultural prestigiado e outorgado como o padrão a ser seguido, espera-se, no mínimo, ponderação, bom senso, respeito e educação. Ou é pedir demais?
Por fim, reporto-me pontualmente aos proto-burgueses (ou os que assim se veem) reacionários (desculpem-me a redundância) que estão disseminando discursos como o anexado abaixo: fascistas, fascistas não passarão!




terça-feira, 14 de outubro de 2014

O OVO, A RAPOSA E A GALINHA



“Como o mundo, o ovo é óbvio.”

(Clarice Lispector)

No limite,
Pouco me importa
A discussão acerca
Da busca pela mono ou pluricausalidade
Dos fenômenos sociais.
Melhor:
É-me indiferente
A ciência que tem como fim último
Explicar se quem veio primeiro
Foi o ovo ou a galinha.
Interessa-me, sobretudo,
Entender o porquê
De terem se apropriado,
Privadamente,
Dos ovos da galinha.
E mais:
O que permite legitimar tal apropriação?
Perguntam:
– Quem veio primeiro:
O ovo ou a galinha?
A galinha ou o ovo?
A ordem dos fatores não altera a propriedade privada.
Até porque, veja bem:
Pode-se construir um tipo ideal,
Tanto do ovo quanto da galinha,
Do mesmo modo como se pode contemplar,
Objetivamente,
O fato social em questão.
E aqui aparece a querela metodológica:
A luta pelo monopólio científico da explicação.
Enquanto isso,
As raposas expropriaram o galinheiro das galinhas,
E estas, a partir de agora, são livres como pássaros.
Subjugadas à liberdade,
Não podem voar, porém,
Posto que lhes cortaram suas asas.
Das discussões acerca da gênese do ovo,
Da ontologia da galinha,
Da ética da raposa,
Do espírito do galinheiro,
Sobra muito pouco para socializarmos a omelete.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

GUIA TEÓRICO DO ALFABETIZADOR: BREVE RESUMO


A alfabetização nunca foi tão discutida, sob o ponto de vista das mais diversificadas áreas do conhecimento humano, como nas últimas décadas. No entanto, apesar do grande número de trabalhos publicados no que diz respeito a este tema, é sempre possível encontrarmos algo novo, como é o caso do livro Guia teórico do alfabetizador, da linguista Miriam Lemle.
 Sem dúvida alguma, tal obra representa uma das maiores contribuições já recebidas, do campo da linguística, pela pedagogia. Isto porque seu conteúdo, por ser altamente didático e utilitário, apresenta-se, como o próprio título sugere, como um guia para alfabetizadores de modo geral, guia este que não se limita apenas à esfera daquilo que podemos chamar de alfabetização tradicional, isto é, da ênfase voltada para o domínio do bê-á-bá, mas, principalmente, por trazer à discussão toda a problemática que há por trás deste tema, como, por exemplo, a questão dos erros cometidos pelas crianças em processo de alfabetização e as riquíssimas considerações acerca das variedades linguísticas.
Logo nos primeiros capítulos, mais precisamente no segundo, Miriam Lemle destaca as capacidades necessárias para alfabetização; segundo ela, o primeiro desafio encontrado pelo alfabetizando, ou a primeira capacidade que ele precisa dominar, é a necessidade de compreender a ligação simbólica entre fonema-grafema, ou seja, entender que as letras representam sons e que quando juntamos esses sons, os transformamos em palavras; a segunda capacidade, por sua vez, diz respeito à faculdade de enxergar aquilo que distingue uma letra da outra, a fim de que a criança perceba que as letras são mais do que meros rabiscos pretos na página em branco; a terceira capacidade, por fim, restringi-se à escuta, isto é, o despertar da consciência fonológica, portanto, saber ouvir e ter consciência dos sons da fala, para distingui-los dos demais sons.
No que toca mais precisamente a questão da apropriação, por parte do alfabetizando, do sistema alfabético, ou, em outras palavras, a tecnologia do ler e escrever, a autora ressalta a importância de algumas etapas pelas quais o mesmo deverá passar, são elas: a teoria do casamento monogâmico entre letra e som, a teoria da poligamia com restrições de posição, a compreensão das partes arbitrárias do sistema alfabético e a necessidade de se ensinar um pouco de morfologia.
A teoria do casamento monogâmico entre letra e som compreende basicamente a relação biunívoca que algumas letras (f / v / b / p / d / t e a vogal a) representam entre si, assim sendo, não importa a ordem ou a posição que as mesmas apareçam em uma determinada palavra, pois sempre representarão seu som específico.
Contrapondo-se a teoria da relação biunívoca, há a teoria da poligamia, que, por sua vez, diz respeito, resumidamente, ao fato de que várias letras podem representar um determinado som e que há vários sons para uma mesma letra, dependendo, assim, da posição que as mesmas ocuparem dentro de uma palavra.
No que tange as partes arbitrárias do sistema, Lemle chama-nos a atenção para a questão de que esta etapa dura por toda a vida, pois está estritamente ligada à questão da ortografia. Isto ocorre quando mais de uma letra pode, na mesma posição, representar o mesmo som, assim, a opção pela letra correta em uma palavra é, em termos fonológicos, inteiramente arbitrária, ou seja, não há regras específicas que possa nos ajudar diante de tal impasse, a solução, para tanto, é memorizar as palavras que apresentam essa arbitrariedade.
Já no que diz respeito ao trabalho com a morfologia, a autora destaca a importância de se ensinar, aos alunos, as regularidades ligadas à morfologia das palavras, tanto o trabalho com os afixos, quanto com os prefixos, pois atividades voltadas especificamente para os aspectos morfológicos ajudam, segundo ela, na fixação da grafia correta das palavras.
Quanto ao conhecimento das variedades linguísticas, Lemle frisa a importância de se respeitar a fala peculiar dos alunos e de não se cometer o chamado preconceito linguístico, pois, além de ser um equívoco linguístico, é também um desrespeito humano e um erro político dizer que determinados grupos sociais falam errado, haja vista que geralmente essas pessoas não fazem parte de um contexto sociocultural e socioeconômico favorável à padronização da língua formal.
Miriam Lemle também destaca a necessidade de se olhar para os erros de escrita dos alfabetizandos com certa atenção teórica, pois nos ajuda a diagnosticar em qual etapa do processo de aquisição da leitura e da escrita os mesmos se encontram. Para tanto, ela classifica os erros dos alunos em três ordens: falha de primeira ordem, falha de segunda ordem e falha de terceira ordem.
A falha de primeira ordem indica que o alfabetizando se encontra na fase rudimentar da alfabetização, isto porque apresenta leitura lenta e com soletração de cada sílaba e escrita apresentando erros de correspondência letra-som.
A falha de segunda ordem, por seu turno, assinala que o alfabetizando ainda se encontra na etapa biunívoca de correspondência entre letras e sons, desse modo, o aluno comete erros de transcrição fonética, isto é, escreve como se fala, e lê pronunciando cada letra e enfatizando o valor central dos sons das letras.
Por fim, a falha de terceira ordem, a qual, em última instância, avalia que o já alcançou o saber ortográfico e já domina, com bastante propriedade, as correspondências entre fonemas e grafemas. Assim sendo, suas falhas se limitarão a erros de arbitrários da língua portuguesa, isto é, às trocas entre letras concorrentes. Constata-se, assim, que no que compete à leitura, o aluno será capaz de pronunciar naturalmente as palavras, sem maiores dificuldades.
Com relação à metodologia de ensino, percebe-se, na autora, uma postura extremamente ética e coerente com sua formação acadêmica, uma vez que ela, mesmo não tratando diretamente das questões metodológicas, por acreditar ser uma área própria dos pedagogos, sugere que se trabalhe com as crianças, no início da alfabetização, com letras que mantenham relações biunívocas entre si, isto é, que correspondam unicamente a um determinado som e vice-versa. Neste caso, deve-se dar preferência a vogal a e as consoantes p, b, t, d, f e v. Lemle ressalta que, com essas letras, podem ser formadas as primeiras palavras e frases, podendo, inclusive, criar versinhos e musiquinhas.
Como proposta didático-pedagógica, é sugerido que se aplique atividades que estimulem o interesse e a atenção das crianças, para tanto, pode-se propor, aos educandos, joguinhos de palavras cruzadas, tomar melodias conhecidas e cantarolá-las e diversas outras atividades que respeitem o nível de desenvolvimento cognitivo dos alfabetizandos.
Ainda com relação ao aspecto metodológico, vale frisar que, apesar de algumas crianças conseguirem fazer leitura por adivinhação, é tarefa do professor alfabetizador ensinar os alunos a decodificarem as palavras, pois é por meio da decodificação que se forma um leitor verdadeiramente autônomo.
No entanto, apesar de propor o que foi dito acima, a autora sublinha que a língua escrita deve ser adquirida pelo mesmo mecanismo natural que nos leva a adquirir a língua falada, portanto, constata-se certa “naturalização”, por parte dela, com relação à metodologia de ensino, haja vista que para ela é mais importante a familiarização das crianças com os livros do que a defesa concreta de um método específico para alfabetizar.
Por fim, cabe destacar, aqui, a relevância desta obra para nós, futuras professoras, a partir do momento em que sabemos que a boa ciência sana a má consciência. Portanto, eis a nossa tarefa, árdua, sem dúvida, mas que sempre pode ser aperfeiçoada e compartilhada com os que estão a nossa volta.


Referência:

LEMLE, M. Guia teórico do alfabetizador. São Paulo: Ática, 2009.


A EDUCAÇÃO COMO MERCADORIA E O BANCO MUNDIAL COMO MERCADOR


Pautado em uma análise essencialmente política e econômica, o artigo O Banco Mundial e a Educação: reflexões sobre o caso brasileiro (Vozes, 1995, p. 169-195), da pesquisadora, mestra em Educação, especialista em Políticas Públicas e Gestão Educacional, doutora em Ciências da Educação e professora da Universidade de Brasília, Marília Fonseca, traz à tona uma riquíssima discussão acerca das propostas economicistas voltadas à educação.
Respaldando-se teoricamente tanto em publicações veiculadas pelo Ministério da Educação (MEC), quanto nos documentos de política setorial produzidos pelo Banco Mundial nos anos de 1970, 1974, 1980 e 1990, a autora analisa as condições, propostas e diretrizes outorgadas pelo Banco Mundial, em certa parceria estreita com o Fundo Monetário Internacional (FMI), para a concessão de empréstimos aos países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil.
Percebe-se então, à medida que essas proposições vão sendo esclarecidas no decorrer do texto, que os países que se submetem às condições impostas pelo BIRD, para que o financiamento dos seus projetos seja aprovado por tal Banco, perdem, em certo grau, aquilo que podemos chamar de autonomia política e econômica. E isto ocorre justamente porque as cláusulas contratuais do Banco Mundial são legisladas com este outro intento, isto é, de permitir que os países-membros (onde 50% dos votos são controlados por cinco países: Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França e Japão) intervenham diretamente na economia política dos países cujo crédito dos empréstimos foi concedido.
No que toca às condições de financiamento voltadas à educação, cabe frisar dois tópicos que não devem passar despercebidos: o primeiro é que, embora a política de crédito do BIRD se autodenomine “cooperação”, esse mesmo financiamento se integra à dívida externa do país para com as instituições bilaterais, multilaterais e, principalmente, para com os bancos privados, haja vista que ele corresponde a um empréstimo de tipo convencional, com todas as suas taxas de compromisso, juros e demais encargos; o segundo é que, de acordo com os dados oficiais divulgados pelo MEC, a participação nacional, no que concerne ao plano financeiro, foi muito maior que a do próprio BIRD, a saber, na execução do primeiro projeto (1971 - 1978) a participação nacional foi de 65,5%, enquanto o Banco Mundial custeou apenas 34,5%, e é no segundo projeto (1984 - 1990) que se constata, efetivamente, o quão pífia foi a participação do BIRD com relação à concessão de créditos, representando apenas 22% versus os 78% da participação nacional.
Outro ponto que deve ser ressaltado é o que diz respeito às condições para que esses projetos venham a ser aprovados, mais precisamente a cláusula que impõe necessariamente a exportação de equipamentos técnicos de outros países, o que constata, por si só, dois pontos de extrema relevância: o primeiro é que confirma aquilo que foi dissertado a pouco, ou seja, a questão de como o BIRD interfere na autonomia político-econômica dos países cujos empréstimos lhes são concedidos; o outro, e o mais importante, é que, ao impor a livre liberdade comercial entre diferentes territórios, pode-se evidenciar, claramente, o caráter neoliberal que há por trás da proposta do Banco Mundial, o que, como se sabe, justifica a privatização do ensino público e a tentativa de mercantilizar a educação como um todo.
É válido ressaltar que, além da problemática estrutural ligada a essa política econômica, a própria conjuntura do país, na época, não fora positivamente favorável a esses projetos educacionais, haja vista que o estudo da professora Marília Fonseca aponta inúmeras dificuldades na execução dos mesmos, como, por exemplo, atrasos na construção das instituições de ensino, metas aquém dos limites traçados e desejados, evasão de alunos a até mesmo problemas na aquisição de materiais e equipamentos, como foi dito anteriormente com relação à obrigatoriedade das exportações.
Por fim, vale sublinhar que, mesmo que a experiência desses projetos mostre que os mesmos não beneficiaram efetivamente o setor educacional, algumas inovações relevantes foram introduzidas a partir dos mesmos, como é o caso da criação de cursos de curta duração de engenheiros de operação e a introdução do modelo escola-fazenda. No entanto, isto não justifica necessariamente tal empreendimento milionário, pelo contrário, os dados empíricos dos quais se dispõem mostram claramente que, no âmbito da educação básica, os resultados práticos dos acordos com o BIRD não legitimam os seus custos, muito menos a sua continuidade.


Referência:

FONSECA, M. “O Banco Mundial e a educação: reflexões sobre o caso brasileiro”. In: GENTILLI, P. (org.). Pedagogia da exclusão. Petrópolis: Vozes, p. 169-195, 1995.



ANTÍGONA E A FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO: TRANSGRESSÃO E DIALÉTICA


“Cumpri contra o destino o meu dever.
Inutilmente? Não, porque cumpri.”
(Fernando Pessoa)


Será um belo fim se eu morrer tendo cumprido o meu dever[1], eis o que diz Antígona, em linhas gerais, à sua irmã Ismene. E é assim que introduzimos esta dissertação, apresentando, desde o início, o fim escolhido por tal filha de Édipo, pois, se é verdade que o salário do pecado é a morte[2], a morte, à Antígona, apresenta-se desde o princípio como o pagamento de sua transgressão.
A transgressão cometida pela princesa tebana será, portanto, o elemento-chave deste texto, pois é a partir dela que proporemos uma leitura dialética em Antígona – e tal leitura, por sinal, será nosso objetivo a ser alcançado.
Recorreremos, portanto, à seção VI da Fenomenologia do Espírito, do filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel, bem como a alguns parágrafos introdutórios desta mesma obra, a fim de contextualizar e evidenciar esse caráter dialético que buscamos empreender. Dito isto, dedicamo-nos, agora, a apresentar, brevemente, esta peça clássica da dramaturgia grega, para logo em seguida analisá-la sob o ponto de vista já mencionado.
Filha do relacionamento incestuoso entre o rei Édipo e sua própria mãe Jocasta, descendente de Lábdaco, fundador de Tebas, Antígona é, antes de tudo, uma personagem que escolhera a morte.
Irmã de Ismene e dos fratricidas/suicidas Etéocles e Polinice, Antígona, de acordo com o Corifeu, é uma jovem de caráter indomável, que não se deixa dominar pela desgraça e se mostra o tempo todo inflexível, tal qual seu pai. Para sua irmã, no entanto, a jovem pode ser vista, até certo ponto, como uma imprudente e até mesmo como uma louca, pois, segundo Ismene, além de não ser prudente tentar o que é irrealizável, é uma loucura tentar aquilo que ultrapassa as forças humanas[3].
Condenada à morte por ter infringido o édito de seu tio Creonte, descendente de Meneceu e Oclaso, esta jovem não se intimida nem se sente coagida nem mesmo na presença de quem a sentenciou a tal condenação.
Diante do governador tebano Creonte, a filha de Édipo reafirma sua transgressão e confessa ter sepultado seu irmão Polinice, o qual, por ordem da referida autoridade, estava terminantemente proibido de receber honrarias fúnebres – haja vista que este fora acusado de retornar do exílio com o propósito de queimar todo o seu país natal, destruir os deuses de sua família e derramar o sangue dos seus.
Desse modo, venerando as leis divinas, Antígona acaba por desprezar a legitimidade das leis da cidade, sob o argumento de que as primeiras jamais foram escritas e mesmo assim são irrevogáveis, isto é, não existem a partir de ontem ou de hoje, mas são eternas, enquanto as leis citadinas são mutáveis e, particularmente nesse caso, fruto da vontade de um tirano[4].
É válido mencionar que Antígona era noiva de Hemon, filho de Creonte com Eurídice, porém tal jovem desposa-se mesmo é com o Aqueronte, um dos rios do Inferno, tendo como leito nupcial o túmulo no qual a mesma é aprisionada até o dia em que se enforca com os cadarços amarrados em sua cintura.
Como estamos diante de uma tragédia, Sófocles, autor desta peça, leva a morte não apenas à Antígona, Etéocles e Polinice, mas a estende às figuras de Hemon, que morre ao lado de sua noiva, e Eurídice, que se fere brutalmente logo após saber do suicídio cometido pelo seu filho.
Se é que isto consola os modernos, pode-se inferir que talvez Antígona e Hemon tenham tido suas bodas no Hades, mas o “felizes para sempre”, no entanto, não contempla este infeliz casal.
Por fim, para finalizar esta narrativa, ouso afirmar que Antígona foi, sobretudo, aquela que morreu antes de Tebas.
A partir do que foi exposto, percebe-se que é o ato executado por Antígona que a torna culpada. Culpada, portanto, porque agiu – pois só o não agir é inocente[5]. No entanto, ela conhecia antecipadamente a lei e sabia a potência que lhe opunha, portanto sua culpa é mais pura[6], pois as tomou por violência e injustiça, e quando cometeu o delito, sabia que assim o fazia.
Desse ponto de vista, nossa heroína não agiu com má-fé, no sentido sartriano do termo; pelo contrário, ao assumir sua responsabilidade enquanto autora do crime, mostra-se livre, dado que deixa transparecer a consciência da necessidade do seu ato.
Do ponto de vista hegeliano, o ato já é o Si efetivo[7], ou seja, o agir é o passar do pensamento à efetividade[8]. Porém, o ato perturba a calma organização do mundo ético. Assim, mediante o ato, o que antes se apresentava no mundo ético como ordem e harmonia entre duas essências, às quais se confirmavam e se completavam mutuamente, agora se mostra como uma transição de opostos, cuja anulação de si mesmo e do outro se sobrepõe.
De acordo com Hegel, o movimento do mundo ético tem por fundamento e por atividade, respectivamente, o reino da eticidade e a consciência-de-si. Esta, como consciência ética, orienta-se para o dever. Eis, pois, o que faz Antígona ao desprezar a Lei humana e legitimar sua ação na Lei divina, uma vez que esta última assegura-lhe a legalidade do seu ato, qual seja, o dever supremo de enterrar seu irmão Polinice. Mas não apenas isto, ou melhor, no caso citado, a consciência-de-si não substitui simplesmente a Lei humana pela divina por um capricho de sua vontade[9], pois um asseverar seco vale tanto como qualquer outro[10], mas principalmente porque, como está orientada para a essencialidade ética, não existe nenhum arbítrio para essa consciência, bem como, também, nenhum conflito e nenhuma indecisão, muito pelo contrário, “a essencialidade ética é para essa consciência algo imediato, inabalável e imune à contradição” (HEGEL, op. cit., p. 320, § 465).
Logo, vê-se que a consciência ética sabe o que tem de fazer e decidiu pertencer a uma das duas leis: seja à humana, seja à divina. Essa imediatez da consciência é, conforme Hegel, um Ser-em-si, e tem, por assim dizer, significação natural. Ora, é a natureza de tal significação que atribui um sexo a uma lei e outro a outra. Portanto, temos aqui a clara contraposição entre Antígona e o Creonte, a Lei Divina e a Lei humana.
Antígona, assim, representa a dimensão da Lei divina, a noite, a família, a morte, os deuses inferiores, o feminino, o particular, o culto aos mortos. Creonte, inversamente, representa a Lei humana, o dia, o Estado, a vida, os deuses superiores, o masculino, o universal, a preocupação com os vivos. Enquanto a Lei humana é a lei do dia e do homem, visível e pública, voltada para regulamentar as condutas humanas, a Lei divina é concebida como a lei da mulher, habitando o lar e a esfera do sagrado. Logo, temos o conflito, que, em Sófocles, é representado pela oposição entre sobrinha e tio, que acaba em tragédia; em Hegel, porém, vemos a noção de uma consciência que se desenvolve mediante o conflito. Eis, pois, a dialética: o espírito de contradição organizado.
Segundo a nossa avaliação, a lei está para Antígona e Creonte assim como o conhecimento está para a verdade. Lembremos o que disse Hegel a respeito do conhecimento: ao criticar o modo como a Filosofia precedente concebe o conhecer – ora como um instrumento com que se domina o absoluto, ora como um meio através do qual o absoluto é contemplado[11], portanto uma representação oca do saber[12] –, Hegel introduz, pela primeira vez, a ideia de conhecimento como algo não separado da verdade. Assim, conforme o pensamento hegeliano, a verdade não se encontra separada do conhecer, pelo contrário, ela está, desde sempre, presente nele. Assim vemos a lei no filho de Meneceu e na filha de Édipo, não como algo estranho ao Si de ambos, mas como expressão de suas vidas. No caso de Creonte em particular, negar a Lei humana é negar a si mesmo, pois, assim como para o rei Luís XIV o Estado era Si próprio[13], a Lei humana, para Creonte, é o seu Self.
Vale destacar que a consciência ética vê o direito somente do seu lado[14], e vê, no outro, o abuso. Logo, “a consciência que pertence à lei divina enxerga, do outro lado, a violência humana contingente. Mas a consciência, que pertence à lei humana, vê no lado oposto a obstinação e a desobediência do ser-para-si interior” (HEGEL, op. cit., p. 321, § 466). Assim, no que diz respeito à figura de Creonte, convém sublinhar que este não é propriamente um déspota, não é alguém que está em erro. Seu papel, como governante, é também o de legislar, portanto sustenta que a lei do Estado, a autoridade do Governo, deve ser respeitada e cuja transgressão deve ser punida, pois se configura como um crime. Tampouco Antígona é uma mera transgressora sem causa, tendo em vista que enterrar seu irmão, mesmo sendo um crime, é um ato de honra em memória de Polinice, afinal, como indaga Antígona à Ismene, “quem é ele para separar-me dos meus?” (SÓFOCLES, op. cit., p. 10, V. 48).
No que diz respeito à culpa, vale lembrar que é pelo ato que a consciência-de-si torna-se culpa. Desse modo, a culpa recebe também a significação de delito, pois a consciência-de-si consagrou-se apenas a uma lei, e, ao renegar a outra, a viola por meio do seu ato. Nas palavras do Hegel, essa culpa consiste em “escolher só um dos lados da essência, e em comportar-se negativamente para com o outro; quer dizer, em violá-lo” (HEGEL, op. cit., p. 324, § 468). Ora, o que fizeram Antígona e Creonte, com relação ao decreto deste e o ato daquela, senão em comportar-se negativamente com relação ao outro? O que fizeram ambos senão, ao seu tempo, cada qual a seu modo, em escolher apenas um lado da essência e violar o lado oposto? Têm-se assim, no tribunal de Sófocles e Hegel, dois réus confessos[15]: mea culpa, mea maxima culpa[16].
Por fim, no que tange à discussão a respeito da essência, vale mencionar que esta é a unidade das duas leis, mas o ato, no entanto, só realizou uma, contrapondo-se, portanto, à outra. Contudo, como na dialética do senhor e do escravo[17], por ambas as leis estarem unidas na essência, o cumprimento de uma evoca a outra, mas evoca como essência violada.
Finalizando, desde já, esta dissertação, acreditamos termos alcançado – principalmente a partir da leitura do parágrafo anterior – o nosso objetivo proposto, que é, como se sabe, buscar ler Antígona pelo viés da dialética hegeliana, utilizando-se, para tanto, a transgressão como meio de evidenciar o choque entre o rei Creonte e sua sobrinha.   
Antígona, como sabemos, está no Hades, em companhia dos mortos que tanto venerava. Por isso é Creonte, e não a filha de Édipo, que, após arrepender-se de ter infringido a Lei dos deuses, concluirá o presente trabalho: “suspeito que observar as leis estabelecidas é o melhor a fazer no percurso desta vida” (SÓFOCLES, op. cit., p. 82, V. 1114-1115). Eis a síntese.


Referências:
HEGEL, G. W. F. Fenomenologia do Espírito. Tradução de Paulo Meneses. 6 ed. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2011.

SÓFOCLES. Antígona. Tradução de Donald Schüler. Porto Alegre: L&PM, 2007.






[1] Segundo a tradução de Donald Schüler, nesta passagem, Antígona diz literalmente o seguinte: “Se ao fazê-lo tiver que morrer, que bela morte será!” (SÓFOCLES, 2007, p. 11, V. 72).
[2] Epístola de Paulo aos Romanos, cap. 6, vers. 23.
[3] “[...] Obedecerei a quem está no poder; fazer mais que isso não tem nenhum sentido” (SÓFOCLES, op. cit., p. 11, V. 67-68).
[4] Convém sublinhar que a palavra tirano (tyrranos) possui uma dupla significação, podendo designar tanto a pessoa de um déspota, quanto um governante que conquista o poder pelo próprio mérito, nesse caso, rompendo-se com a antiga linhagem dos Labdácidas, uma vez que não apenas Édipo está morto, bem como também seus dois filhos: Etéocles e Polinice.
[5] HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do Espírito. Tradução de Paulo Meneses. 6 ed. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2011. p. 323, § 468.
[6] Idem, ibidem, p. 325, § 470.
[7] Idem, ibidem, p. 320, § 464.
[8] Idem, ibidem, p. 322, § 467.
[9] Afinal a consciência sabe que “a diferença entre apoiar-se em uma autoridade alheia, e firmar-se na própria convicção – no sistema do Visar e do preconceito – está apenas na vaidade que reside nessa segunda maneira” (Idem, ibidem, p. 75, § 78)
[10] Idem, ibidem, p. 74, § 76.
[11] Idem, ibidem, p. 71, § 73.
[12] Idem, ibidem, p. 73, § 76.
[13] “L’État c’est moi.” (O Estado sou Eu).
[14] A respeito disto, vale mencionar o que disse Hemon ao seu pai, ao pedir que este reconsidere sua sanção para com Antígona: “Não carregues em ti só uma morada da verdade: o que tu dizes, nada mais que isso. Quem julga deter saber exclusivo, possuir língua e mente estranha aos demais, nesse, se o abres, verás o vazio” (SÓFOCLES, op. cit., p. 53, V. 705-709).
[15] Creonte, após dar-se conta da morte de Hemon, reconhece a sua culpa: “[...] morreste, partiste por desacertos meus, não teus” (SÓFOCLES, op. cit., p. 92, V. 1268-1269). O mesmo se dá com Antígona, quando esta confessa seu crime: “Admito, não nego nada” (Idem, ibidem, p. 35, V. 443).
[16] Trecho da tradicional prece católica Confiteor (Eu confesso).
[17] Hegel, op. cit., p. 147-148, § 189-191.